Crianças inteligentes também sofrem preconceito, afirma neuropsicóloga

A neuropsicóloga Cristiane Costa Cruz dialoga com o público, através de seu próprio relato pessoal, sobre a questão das crianças superdotadas, com QI acima da média, e das dificuldades que elas enfrentam no contexto social e do papel fundamental da família como apoiadora destes jovens.

SÃO PAULO, 28 de Fevereiro de 2019 — O diferente, o novo, assim como o extraordinário, costumam chamar para si muita atenção. Crianças inteligentes, com QI acima da média, também enquadram-se dentre aqueles que destoam da maioria, e por isso podem sofrer com a incompreensão dos demais, e serem consideradas “inteligentes demais”, exibicionistas, tidas por arrogantes, e enfrentarem um certo nível isolamento e solidão por suas idéias diferenciadas ou pelo volume delas.

Dra. Cristiane Costa Cruz (Foto: Reprodução)

A neuropsicóloga Cristiane Costa Cruz é membro da Mensa Brasil, uma associação de pessoas de alto QI, (inteligência acima da média) com sede na Inglaterra, e traz através de seu próprio relato pessoal e de fatos científicos, uma narrativa sobre o que é ser uma criança considerada “inteligente demais”.

O Início

Sempre tive a sensação de ser diferente. Embora soubesse que era inteligente, eu só entendi o motivo dessa sensação quando fiz um teste de QI e descobri que tenho uma inteligência muito acima da média. Entrei para uma associação de superdotados, fiz novas amizades e passei a entender que muitas das características que me tornavam diferente estavam relacionadas à inteligência. Conhecer essas pessoas foi como receber um atestado de que não há nada de errado comigo, e um alívio. Hoje entendo que a superdotação intelectual é um fator determinante na minha vida.

Dra. Cristiane na infância (Foto: Arquivo Pessoal)

Prós e Contras de ser uma criança inteligente

Ser muito inteligente não traz apenas vantagens. Há uma certa melancolia, uma sensação de que alguma coisa está faltando. Eu não sei se minhas idéias são melhores, mas certamente tenho muito mais idéias do que a maioria das pessoas e muitas vezes não sei o que fazer com essas idéias. 

Quando criança, eu aprendia tudo com muita facilidade e comecei a ler muito antes de ser alfabetizada na escola. Essa é uma característica evidente em crianças superdotadas. Minha mãe conta que eu sempre perguntava o que estava escrito nas placas e cartazes pelas ruas e assim fui aprendendo a identificar as letras, seus sons e significados. 

Durante a infância, era comum eu ser a melhor aluna da sala. Na adolescência relaxei um pouco, mas nunca cheguei perto de uma recuperação. Eu não precisava estudar para as provas e sempre passava com boas notas. Aprendia tudo muito rápido e não tinha muita paciência para esperar o tempo dos outros. Alguns superdotados se entediam com isso e acabam ficando desestimulados. Eu não gostava de ser criança, não por minha infância ter sido ruim, mas eu queria que me levassem a sério. Hoje estou sempre em busca de novos projetos, para me sentir animada com a vida.

Privilégio ou fardo?

As crianças superdotadas não devem ser consideradas como privilegiadas. Por serem detentores de traços diferenciados, são portadores de necessidades educacionais especiais. Entretanto, ao contrário das pessoas com deficiências, os superdotados causam sentimentos contraditórios, que variam entre admiração, inveja, ódio, ou mesmo a simples indiferença. A superdotação intelectual é apenas um potencial inato que, para gerar bons resultados práticos, precisa ser bem desenvolvido. 

Convívio e adequação na sociedade

Muitas dessas crianças não se sentem à vontade com pessoas da mesma idade e têm dificuldade de se adequar ao grupo e fazer amigos na escola. Desde pequenos, tendem a ver o mundo de forma diferente dos seus colegas e sentem falta de ter com quem conversar. Sentem que os outros não acompanham seu raciocínio e não acham graça nos assuntos e brincadeiras da maioria. Eu sempre gostei de conversar com crianças mais velhas e com adultos. A escola poderia trabalhar para preparar esses alunos para se integrarem melhor na sociedade. 

Uma grande parte das pessoas superdotadas não atinge o sucesso financeiro na vida adulta e uma queixa comum é a dificuldade para se adaptar ao mercado de trabalho. Também é comum a sensação de fracasso pessoal e de que seu potencial poderia ter sido mais bem aproveitado. Muitos não têm grandes ambições e trocam o conceito de sucesso financeiro por trabalhar em algo de que goste e que traga realização pessoal. O empenho na satisfação dos próprios interesses é uma característica presente na maioria dos inteligentes.

Olhar sobre a vida

Uma coisa que percebo é que alguns superdotados entendem que tudo o que não passa pela lógica racional não tem valor. Acreditam que a sua verdade é a única possível e quem não concorda com essa verdade está errado. Os que têm essa característica acabam se tornando muito solitários e dificilmente aceitam qualquer tipo de ajuda. Entendo isso como uma limitação da própria inteligência: É como se fossem blindados a qualquer tipo de influência que vá além de suas próprias idéias. Ou talvez a inteligência sirva como uma espécie de analgésico ao qual se pode recorrer para aliviar os desconfortos da vida real.

O que fazer? Qual o papel da família na lida com crianças superdotadas?

Certamente não há uma fórmula única para atender às necessidades dos superdotados. A família e escola devem trabalhar em conjunto, compartilhando esforços e informações. Os superdotados não formam um grupo homogêneo e não podemos cair na tentação de generalizar ou buscar fórmulas prontas para este grupo, que tem como principal característica estar além dos padrões. É importante oferecer mais estímulos, para que as habilidades específicas sejam valorizadas e desenvolvidas, pois só assim poderão usar seu potencial de forma produtiva, quando se tornarem adultos. Também é preciso entender que superdotação não é sinônimo de genialidade. Gênio é alguém capaz de usar a inteligência para contribuir de forma extraordinária com a humanidade, deixando sua marca na história. 

Mais do que beneficiar os próprios superdotados, entender essas questões é fundamental para que os talentos especiais possam ser aproveitados pela sociedade. As políticas tradicionais costumam fazer os mais inteligentes se adaptarem ao ritmo dos menos inteligentes e não dar atenção especial a superdotados na escola é desperdiçar talentos. Em países mais desenvolvidos, como Japão e EUA, existe um grande investimento em identificar e estimular crianças e jovens com habilidades especiais. Os melhores alunos são remanejados para classes especiais ou mais avançadas. Existe uma busca constante pelos cérebros mais privilegiados, que são incentivados a desenvolver seu potencial. Estudos confirmam que esse investimento está diretamente relacionado à prosperidade econômica desses países. 

Sobre a autora

Cristiane Costa Cruz é psicóloga, neuropsicóloga, membro da Associação Mensa Brasil e autora do livro “O Cisne que não comia”.

Atualmente, está em busca de patrocinadores para o projeto “Crianças Inteligentes Demais”, que tem o objetivo de entender e buscar novas idéias para a educação de crianças superdotadas.

28 de fevereiro de 2019