É realmente necessário sacrificar um animal para um ritual religioso?

Filósofo e pesquisador Fabiano de Abreu discorre sobre a lei constitucional que permite o abate de animais para cerimônias religiosas

RECIFE, 03 de Fevereiro de 2019 — Cada vez mais, sociedades protetoras dos animais tem levantado protestos e questionamentos em toda a sociedade sobre a real necessidade de matança de animais, seja para alimentação, vestuário, ou até mesmo motivos cerimoniais e religiosos.

Sobre o polêmico tema, o filósofo e escritor Fabiano de Abreu levanta alguns questionamentos e posiciona-se sobre a questão da religião e do sacrifício de animais.

Lei x Prática Religiosa

Tenho acompanhado de perto a discussão sobre a lei que permite o sacrifício de animais nas religiões afro-brasileiras como oferendas. Li, inclusive, que representantes de religiões de matriz africana foram ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE) e entregaram um manifesto que pede o veto à lei.

Tento me colocar racional dentro de circunstâncias, que vão além da religião. A era dos sacrifícios com animais já passou há muito tempo. Aconteceu em uma época antes da evolução, em que a base do nosso conhecimento era restrita em relação aos dias atuais. Hoje já temos conhecimento suficiente para entender que isso não é, ao meu ver, necessário.

Vamos aos princípios básicos de um raciocínio lógico: se a religião propaga o bem, seria um ato de uma pessoa boa sacrificar animais que não seja para alimento?   

Contradições

Estive em Angola para lançar meu livro, e tenho clientes angolanos como assessor de imprensa. Comentei que fui a um Centro de candomblé uma vez e o pai de santo me pediu para falar o africâner de Angola. Os intelectuais de Angola me afirmaram que não se fala esse idioma por lá, que falam português, e têm orgulho da colônia e tradições trazidas pelos portugueses. Inclusive me disseram que o candomblé é uma religião rara por lá. Eles são em geral, católicos.

Não estou dizendo isso por ser contra o candomblé ou qualquer religião de matriz africana, eu não sou contra, nunca, em hipótese alguma. Tanto que já frequentei diversas vezes, e tenho diversos amigos na religião. Estou dizendo isso pois tem coisas que são parte do passado, que já não há por que continuar, que nós aqui paramos no tempo enquanto outros evoluíram. E, para mim, sacrifícios de animais é parar no tempo. Mas isso é uma opinião totalmente pessoal.

Cultura e história da humanidade

Mas tem um porém: não sou contra um religioso, de nenhuma religião, que sacrifique animais e que me diga que faz o sacrifício do animal e depois o come, sendo que foi abatido no tempo certo, adulto, para as oferendas e depois para alimentação. Ate porque, estudos apontam que por sermos carnívoros evoluímos, justamente por comer carne. Povos se desenvolveram e superaram a ‘era do gelo’ comendo carne.

O que diz a lei, afinal?

Vale destacar que o processo é movido pelo Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal e que a Lei gaúcha 12.131/2004, que permite o sacrifício de animais destinados à alimentação nos cultos das religiões africanas, foi validada pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS).

27 de fevereiro de 2019