Filósofo indica alternativas para o fim da criminalidade nas comunidades

O escritor, pesquisador e filósofo Fabiano de Abreu, que foi e é assessor de três políticos no Brasil e dois em Portugal, elaborou uma pesquisa sobre a política e principalmente sobre a violência no Brasil. Com base no levantamento ele propôs alternativas para o fim da criminalidade nas comunidades mais pobres.

“Para mim a violência é um dos maiores dos problemas que temos hoje. Inclusive a violência move a economia não só pelos gastos que temos para poder combatê-la, mas também pelo fato de que as pessoas não saem de casa com medo e assim não movem a economia. Sem contar a qualidade de vida que está completamente ligada à violência. Não somos mais medievais que saíam com espada e matavam um aos outros. Estamos em uma era em que o normal é ter paz e quem não tem é quem está em guerra. Fora isso o que falta é qualidade de vida. Por isso ando fazendo pesquisas há um tempo aproveitando a influência que tenho por conhecer muita gente e ter clientes em diversas partes do mundo. É muito fácil para mim conseguir isso, até porque também forneço convidados a programas de televisão e rádio baseado nesse conhecimento que tenho. Conversei com algumas pessoas que moram em favelas, em comunidades e uma é uma jornalista conhecida que trabalha em um grande canal. Falei muito com ela para chegar em algumas percepções. Também conheço pessoas do Exército até mesmo na família, principalmente do Rio de Janeiro. A realidade é que temos os direitos humanos muito influentes aqui no Brasil, muito mais do que em outros países. Existe uma preocupação dos direitos humanos entrar, vir contra e mudar todas as estratégias e planos que o Governo possa ter. O que percebi é que as pessoas das comunidades têm convicções e existem as pessoas que não tem estudo e que acabam ficando muito do lado do crime, e as que estudam acabam ficando neutras. Me passaram a informação que quase metade dos jovens numa comunidade acabam entrando para o crime e que isso está se tornando uma cultura. É legal você ser bandido, ter um tênis, a cultura de que ser bandido é da hora”, analisa o especialista.

Outro problema da comunidade apontado por Fabiano de Abreu é a questão de que as pessoas não precisam pagar contas como luz, água e televisão a cabo: “Elas acham que vão economizar mais e muitas também vivem do conformismo e da preguiça. E as pessoas acabam achando que o Rio de Janeiro inteiro é uma favela porque as casas por fora não são pintadas e arrumadas. Temos que cuidar desse visual, sair desse marasmo, desse conformismo pois se preocupar com o visual é se preocupar com a melhoria. Acredito que muitos dos problemas são um somatório de coisas, que vai desde a educação, da cultura, da percepção e da preocupação de como é visto na sociedade. É como se fosse viver e sobreviver. As pessoas não estão querendo se preocupar com o legado que vai deixar e sim de sobreviver, então não se preocupa com essas coisas”. 

O escritor, pesquisador político e filósofo também alerta para o fato de que o Governo esqueceu da favela e não entra nela: “O Governo deixa no esquecimento, então as pessoas lá dentro vivem como podem e o crime tem essa presença pois é um dos únicos recursos que eles têm para apoiar. Se existe um roubo de carga, a mercadoria é distribuída dentro da favela. Então eles acabam tendo uma estrutura para o crime e ficando do lado. Não podemos julgar o favelado e dizer que são todos bandidos. Os que apoiam os bandidos apoiam por culpa do Governo. A educação ali dentro é primordial e isso acaba sendo uma lavagem cerebral. A polícia acaba chegando lá com helicóptero e atirando em todo mundo. A percepção dentro da favela é de que o policial é um cara mal, ruim e isso comove o crime só pelo fato da pessoa saber que a polícia vai querer matar”.

“A solução para mim é complexa. A cultura de uma civilização daquele povo ou daquela sociedade se dá com muito tempo. Existem culturas que têm milhões de anos. Nos adaptamos a uma cultura que não deu um resultado bom e agora para mudarmos isso é complexo. Só não é impossível porque nada é impossível nessa vida. Precisamos começar de agora para não virar um caos social ao nível internacional. Precisamos começar na educação, o Governo precisa entrar na comunidade, fazer da comunidade um bairro e colocar leis diferenciadas. A gente não pode querer que o pobre pague o mesmo imposto do rico. Precisa ser como na Europa: quanto mais pobre você for, você paga menos e conforme você vai subindo de nível vai pagando mais. Esse é o correto. Ouvi de uma pessoa que vendeu uma casa da favela por R$ 100 mil. Falei: ‘Mais tem casa no subúrbio mais barata’. Mas a pessoa prefere pagar na favela porque não paga as outras contas. Ou seja: casas na favela são mais caras do que fora da favela porque as pessoas não querem pagar contas. Tem um governo paralelo nisso tudo e é esse o problema. O Governo precisa entrar na comunidade e fazer com que eles sejam incluídos e não excluídos porque existe uma exclusão social sim, há muitas décadas. E tudo que estamos vivendo hoje é uma exclusão social do passado. Precisamos ter uma inclusão social do Governo dentro da comunidade e se preocupar em colocar leis, regras, estudo, educação, saúde, ter controle da taxa de natalidade”, argumenta Fabiano de Abreu. 

O problema da criminalidade é a favela? O especialista responde: “Não estamos falando do roubo dos bandidos políticos, estamos falando do crime de pessoas que matam por celular e a maioria é criado na favela por todas as circunstâncias de vida que eles têm. Essa é uma questão óbvia. Perguntei para uma pessoa da comunidade por que ela não tem um diploma ou porque não terminou os estudos e não vi interesse em fazer isso. Essa falta de interesse precisa de um incentivo. Acredito que o uso de psicólogos e especialistas nesses lugares pode ser muito importante”.

30 de março de 2019